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domingo, 10 de fevereiro de 2013


A tônica do EAD no Serviço Social


Iniciamos a discussão com um dos pontos cruciais da discussão para os críticos do ensino a distância: A mercantilização da educação superior. É sabido pois que após o processo de reconceituação do Serviço Social em 1979, a lógica da profissão está calcada na formação profissional baseada na cientificidade do qual aguça o senso crítico dos alunos acadêmicos com a perspectiva destes transmitir esse conhecimento externamente à Academia (o desenvolvimento da teoria no campo prático, desenvolvendo sua práxis profissional de acordo com o ideário marxista de análise da realidade ) de modo que o Serviço Social estaria mais interessado em inserir profissionais críticos no mercado de trabalho do que formar mão-de-obra para suprir ou cobrir buracos abertos pelo sistema capitalista na sociedade:

" A pesquisa possibilita uma fecunda integração entre o ensino de graduação e pós-graduação e contribui para imprimir padrões de excelência acadêmica à instituição universitária no exercício de suas funções precípuas, que não podem ser reduzidas à transmissão de conhecimentos e à formação de mão-de-obra especializada para o mercado de trabalho." (IAMAMOTO, 2010, p. 453)

Através da pesquisa, ou seja, a continuidade do ato de estudar tal ou tais objetos de estudos não acenam para um perfil profissional remetente aos antigos assistentes sociais conservadores e sim, de um profundo comprometimento na esfera ética e política com as classes subalterna, trabalhadora e proletária. E esse ato de pesquisar não está na razão pura de desenvolver uma didática simples de realidade e sim um complexo sistema de entendimento e compreensão da realidade de modo a contradizer com a lógica do mercado em formar meros profissionais ou formatados à aceitação da lógica capitalista ao ponto que:

“ tal concepção de mundo constitui o senso comum – fragmentado e desordenado – e explica os fenômenos sociais baseada naqueles pressupostos, o que leva a afirmar que a globalização é um movimento inexorável, sendo urgente adequar-se a ela; que a educação é um meio para que cada um, segundo seu mérito pessoal, vença na competição, natural e cotidiana da sociedade do conhecimento; que o mercado é o lugar mais adequado e eficiente para o avanço do ensino superior; e o desemprego é justificado pela “inempregabilidade”, isto é, pela desqualificação educacional de seus indivíduos. (PEREIRA, 2008, p.24)    

Essa afirmação é trabalhada por Pereira como o aceno favorável à uma formação colaboracionista e consensual de modo a atender às demandas de trabalho do capital e nesse ponto a formação profissional deve primar em um movimento contra-hegemônico ao ideário neoliberal para a educação de modo não abalar o seu tripé de excelência seja na graduação ou na pós-graduação brasileira:  “ O modelo de educação superior no Brasil não foge a regra (...) marcado pela ruptura entre ensino, pesquisa e extensão, tripé que o sustenta, promove o aligeiramento dos cursos que, agora, não priorizam a pesquisa inovadora.” (GUERRA, 2012)
Esse é o principal caminho para a critica à modalidade EAD: A posição dessa modalidade contempla ao que Pereira e Iamamoto criticam como metodologia de pesquisa e se torna uma ameaça ao que denuncia Guerra.
Os cursos à distância usam de metodologia os encontros presenciais entre alunos e tutores seja semanais ou quinzenais. Como o próprio nome, todo o curso é guiado e direcionado na esfera virtual bem como usam como ferramentas próprias para o desenvolvimento de seus estudos: vídeo-aulas gravadas em estúdios pelos professores do curso e convidados, apostilas produzidas com o material bibliográfico de vários autores do Serviço Social, salas abertas no núcleo EAD como chats, fóruns de discussão onde o tutor responsável fica ao cabo de responder dúvidas dos alunos e que é usado para a entrega de atividades elaboradas aos alunos bem como pequenos “Quiz" com questões objetivas e outros espaços para questões discursivas. O trabalho de conclusão de curso (o TCC) na maioria das vezes é por formato de artigo cientifico que deve ser inferior a 13.000 caracteres (entre 8 a 12 laudas) ou o tradicional trabalho monográfico até no máximo 60.000 caracteres (entre 30 e 40 laudas) o que reduz e muito a descrição do trabalho caso se queira alcançar um mínimo de criticidade sobre o tema escolhido.
Essas autoras usam dessa critica por entenderem que uma formação profissional comprometida com o projeto ético-político assumido sob égide das lutas de classes em favor da classe trabalhadora não pode e nem deve se sujeitar a um modelo educacional que contempla somente a formação profissional como repositor de peças no mercado de trabalho “Acima de tudo, o Serviço Social assume a produção do conhecimento como possível contribuição da profissão para compreensão e solução de problemas sociais que afetam a grande maioria da população brasileira” (SILVA et al., 2005 p. 72)
É bem verdade que a qualidade de formação profissional nas instituições de ensino fica ao cabo do aluno no sentido que os professores são como auxiliares que transmitirão seu conhecimento critico aportado para que sirvam de bases teóricas para suas futuras formulações que concordarão plenamente ou questionarão completamente refutando-as fato esse comprovado pela qualidade das produções cientificas que independem da instituição que seus autores tiveram seu primeiro contato com o Serviço Social na Academia, logicamente que as mais conceituadas e renomadas levam ampla vantagem sobre as demais já que seus requisitos tanto de inscrição nos cursos de graduação e pós-graduação atendem a um rigoroso controle de qualidade por excelência (apenas trabalhos com potencial forte para um estudo mais apurado e inédito na Academia são aceitos nos programas) e pelo fato de muitos dos renomados autores do Serviço Social quando não foram alunos dessas instituições, são professores e coordenadores de curso nessas.
Porém, o que se critica não ganha a consistência se postos na prática. A popularização do EAD não se deu somente pela explosão de cursos oferecidos inicialmente por universidades públicas e privadas (destaque para a UNITINS, a primeira instituição pública que ofereceu o Serviço Social EAD em 2006) mas pela dificuldade imposta ao futuros alunos do curso nas instituições públicas(há uma mea culpa entre os órgãos responsáveis pela gestão desses cursos e o Estado que gere a educação superior) pois essa barreira que dificulta o acesso bem como quando conseguido, o aluno é submetido ao horário inflexível que o obriga a estar disposto integralmente a qualquer horário ao prêmio de seu ingresso à educação pública parece não estar claro nas criticas tecidas ao EAD e as instituições particulares que oferecem um horário mais acessível a esses alunos ao prêmio de comprar um serviço de educação que deveria ser a ele conferido por direito.
O resultado disso é a inversão dos atores sociais no ensino superior: Alunos de famílias com poder aquisitivo alto ocupam vagas nas universidades públicas e alunos de famílias com baixo poder aquisitivo se amontoam nas instituições particulares e seduzidos pelo baixo preço e a oportunidade de conciliar sua vida cotidiana com os estudos em que ele é o condutor e o conduzido de sua formação profissional faz o EAD se tornar uma ameaça letal aos cursos presenciais por representar:
“ A massificação e a perda de qualidade da formação universitária estimulam o reforço  de mecanismos ideológicos que facilitam a submissão dos profissionais às “normas do  mercado”, redundando em um processo de  despolitização da categoria, favorecido pelo isolamento vivenciado no ensino à distância e na falta de experiências estudantis coletivas  na vida universitária.   O estímulo à graduação  a distância é um recurso para a ampliação da lucratividade  das empresas educacionais – este sim o seu objetivo maior – a que se subordina a qualidade  do ensino e da formação universitária. É isto que permite vislumbrar, como faces de um  mesmo processo, a precarização do ensino e do trabalho profissional. Essa tendência é  compatível com premissa de que o “mercado”  – leia-se o capital  – é portador da  racionalidade sociopolítica e o agente principal do bem-estar da República.” (IAMAMOTO, 2009, p.37 grifos meus)

A preocupação de Iamamoto reflete no receio de o Serviço Social retornar a passos largos ao “extinto” conservadorismo impondo um certo conservadorismo, não o trabalhado e remetido à Igreja Católica mas sim o compromisso assumido de 1979, de conservar o espírito do Movimento de Reconceituação, de manter viva a vanguarda socialista conservadora no seu sentido puro de ser (aqui, incitei essa declaração minha como uma provocação critica não ao movimento e tão pouco do Serviço Social atual mas de que essa ameaça foi a mesma sentida pela Vanguarda Conservadora quando o Conservadorismo Católico foi implodido pelo marxismo no Serviço Social na década de 70, Portanto, não é uma manifestação de resgate ao Conservadorismo Católico e tão pouco à adesão espontânea ao regime contrário a ordem critica do Serviço Social atual) pois essa preocupação se dá na descaracterização, banalização do Serviço Social deixando-o profano e em suas palavras:
“ A hipótese é que o crescimento do contingente profissional, ainda que reflita a  expansão do mercado de trabalho especializado, poderá desdobrar-se na criação de um exército assistencial de reserva. Isto é, um recurso de qualificação do voluntariado no reforço  do chamamento à solidariedade em um ambiente político que estimula a criminalização da  questão social e das lutas dos trabalhadores e o caráter assistencial das políticas sociais.”(IAMAMOTO, 2009, p. 36) 

A conseqüência desse cenário segundo ela, é de caos profissional resultando em desemprego no Serviço Social pois haveria um mercado enxertado de profissionais sem oficio, achatamento de salários e proventos exatamente por que seria muita mão-de-obra disponível no mercado de trabalho e mais diminuindo aos mínimos o piso salarial, a degradação das condições de trabalho e instabilidade no trabalho, já que pressionaria o profissional a adotar uma conduta passiva sob pena de ser substituído por quem se submeteria a esse tipo de conduta. 

Só adiciono o que anteviu Iamamoto que esse cenário já está tão presente antes mesmo do artigo O Serviço Social na Cena Contemporânea ser publicado mas esse assunto não cabe aqui nesta discussão, ficando para outros momentos seguintes.

Temos sim que criticar e apontar os caminhos mas também não podemos ficar todo o tempo apenas criticando, e nem também por exemplo criticar sem nada propor em lugar de objeto a ser criticado por que nas palavras de Slavoj Žižek  “ Não aja. Apenas pense. (...) “no século 20 nós tentamos mudar o mundo de forma muito rápida, chegou a hora de interpretá-lo de novo, de começar a pensar” e quem lê essa frase pode imaginar entre tantas criticas, o conformismo e o simplismo nihilista de desistência do espírito revolucionário mas sua resposta a isso vem em suas outras frases “ A crítica, isto é, a “limpeza de mesa”, é necessária, mas este é apenas o primeiro passo de um processo que visa à revolução.” Quer dizer, o não agir não significa se conformar mas sim de se articular através do pensamento, eis que isso falta aos críticos tanto do EAD quanto de questões tão exaustivas já debatidas pois essas descrições são na realidade os efeitos emancipatórios que Žižek trabalha:   
“Meras descrições do estado das coisas, não importa quão precisas sejam, falham em gerar efeitos emancipatórios” Estes efeitos emancipatórios são terrivelmente necessários agora que nosso sistema capitalista global está decadente e se aproximando de um precipício. Como é o caso da revolução em si, “crítica”, “filosofia” e “pensamento” também devem passar de uma fase incisiva, destrutiva para uma criativa, produtiva, de modo que seja verdadeiramente emancipatória. Nós vivemos em uma época em que o capitalismo está falindo, um apocalíptico marco zero está se aproximando. Precisamos ressuscitar e reviver nossas imaginações políticas, e pelo menos começar a imaginar como seriam as alternativas.” (ŽIŽEK apud. MAZOTTE, 2013 grifos meus)

Se temos a criticar o EAD, devemos também propor algo em seu lugar pois Iamamoto ressalta que sua critica não é especificamente com EAD simplesmente e sim com a mercantilização do ensino superior em que o EAD foi usado: 
“ Importa salientar que aqui não se trata simplesmente de uma recusa ingênua da tecnologia do ensino a distância, o que atesta a iniciativa deste curso. O problema está no contexto de privatização do ensino superior em que ocorre o ensino graduado e sua incidência em um curso universitário de caráter teórico-prático que exige estágio supervisionado e que tem uma relação direta com a vida cotidiana dos sujeitos com que se trabalha.” (IAMAMOTO, 2009, p.37)

Assim sendo, esse ensaio se faz pequeno ao que se já vem sendo debatido e acredito que essa venha a ser a tônica da discussão do Serviço Social da Contemporaneidade de grande impacto nas mesas de debate, pois estamos diante de dilemas que podem determinar os rumos da profissão bem como podem ou enricar a discussão abrindo portas para futuros trabalhos, questionando ou aprimorando o estudo dessa polêmica.


Referências:


GUERRA, Yolanda Aparecida Demetrio. A Polêmica Sobre o Mestrado Profissional e a Área de Serviço Social – subsídios à reflexão. Disponível em: http://www.cresspr.org.br/wp-content/uploads/2012/11/A-POL%C3%8AMICA-SOBRE-O-MESTRADO-PROFISSIONAL-E-A-%C3%81REA-DE-SERVI%C3%87O-SOCIAL-doc-.pdf acesso em: 10/02/2013 às 12:34hs

IAMAMOTO, Marilda. Serviço Social em Tempo de Capital Fetiche: capital financeiro, trabalho e questão social. – 4.ed. São Paulo: Cortez, 2010

___________, O Serviço Social na cena contemporânea. Especialização à Distância para Assistentes Sociais. Serviço Social: Direitos Sociais e Competências Profissionais. Brasília: CFESS/ABEPSS; CEAD/UNB, 2009. Disponível em: http://www.prof.joaodantas.nom.br/materialdidatico/material/1_-_O_Servico_Social_na_cena_contempor_nea.pdf acesso em: 10/02/2013 às 14:34hs

MAZOTTE, Natália. Žižek: Menos ação, mais imaginação política. Disponível em: http://www.canalibase.org.br/zizek-e-preciso-ressuscitar-a-imaginacao-politica/  acesso em: 10/02/2013 às 15:39hs


PEREIRA, Larissa Dahmer. Educação e Serviço Social: Do Confessionalismo ao Empresariamento da Formação Profissional. – São Paulo: Xamã, 2008

SILVA, Maria Ozanira da Silva e Silva; CARVALHO (Orgs.), Denise Bomtempo Birche de. Serviço Social,Pós-Graduação e Produção de Conhecimento no Brasil. – São Paulo: Cortez, 2005